AS MULHERES DE SUAS VIDAS (notas sobre o feminino nos filmes da competição nacional)

Seis dos sete curtas exibidos na terceira sessão da Mostra Competitiva Nacional do Festival Primeiro Plano 2009 tinham na mulher sua figura principal. Curioso também perceber, com os debates do dia posterior à exibição, a relação dos diretores com seus filmes e suas impressões em relação ao universo feminino. Com exceção de 3.33, de Sabrina Greve – um filme denso, que transcreve as sensações de uma mulher que sofre de distúrbio bipolar –, as diretoras mostraram um lado mais leve, alegre, romântico e até ingênuo da mulher. Os homens, por sua vez, trataram da solidão, mostrando formas diferentes de preencher (ou não) o vazio dentro de suas mulheres-protagonistas.

Assim foi com Os últimos momentos para você ser o que eu quiser, de Lígia Gabarra, e Ana Beatriz, de Clarissa Cardoso. O primeiro fala de uma adolescente que, enquanto espera o garoto por quem está apaixonada chegar até ela, fantasia os motivos que o fizeram não telefonar para ela no fim de semana. Entre idéias positivas e negativas, a garota imagina até situações absurdas (como a possibilidade de seu amado ser super-herói), mostrando toda a sua ingenuidade adolescente. No segundo, apesar da narrativa falar do dia Paulo, as imagens mostram Ana Beatriz até o momento em que eles se conhecem numa loja do shopping e começam a namorar. Produzido com fotografias em stop motion e tão colorido quanto o Os últimos momentos…, o curta mostra na protagonista uma mulher moderna, segura, mas não menos romântica, em uma história de amor ao estilo “Eduardo e Mônica”.

As mesmas cores e leveza não estão presentes nas outras três narrativas exibidas. Em Parasara, Igor Moura demonstra as impressões de Sara quanto ao mundo que a cerca, após a morte dos pais. A opção pela técnica da rotoscopia (onde se usa como base as imagens filmadas de modelos vivos) dá à animação um tom de sonho, que nos confunde quanto ao real significado das experiências vividas pela protagonista. André Mielnik também trata da solidão em Sobe, Sofia. Sofia é uma jovem que vive uma solidão compartilhada, até descobrir-se sozinha de verdade com a morte da sua avó. Os hábitos introspectivos da personagem e a palidez da fotografia dão a sutileza necessária ao filme. À primeira vista, a exceção parece ser Minha tia, meu primo, de Douglas Soares. Sateni, tia-avó do diretor e protagonista do curta, mostra-se alegre e extrovertida. Engraçada, a senhora fala sem pudor das poucas expectativas, além de preencher seu vazio emocional (ela é viúva e não tem filhos) com seu pássaro de estimação, tratado como filho.

Enfim, não se pode afirmar ao certo o que causa essa diferença de visões: o sexo por si só não pode ser, a exemplo de 3,33, dirigido por uma mulher. Sem dúvida a sensibilidade masculina e feminina são divergentes. Os filmes de Clarissa Cardoso e de Lígia Gabarra são classificados – a contragosto de Lígia – como “fofos”. Talvez essa liberdade em ser “fofo” permitiu às diretoras a leveza de suas “comédias-românticas”. Para os diretores, talvez, o estereótipo da fragilidade e sensibilidade da mulher deixou-os mais à vontade para tratar a solidão. O fato é que as diferentes impressões dos diretores e diretoras quanto às “suas mulheres” proporcionaram uma sessão única para os espectadores.

Íris Jatene

INSANO JAZZ, de Hélio Coelho

Infelizmente, não conheço o Espírito Santo. Do pouco que sei (dos livros de geografia do Brasil), consegui identificar no curta de Hélio Coelho, Insano Jazz, alusão às montanhas, ao sol do clima tropical de terras quentes do litoral, às praias e à atividade pesqueira do Estado limítrofe com o oceano. Sem dúvida, alguém mais afinado à cultura e à geografia capixaba poderá identificar mais elementos que representam o estado sudestino.

Contudo, para além de elementos capixabas, a animação se propõe a ilustrar sua trilha sonora. Uma experiência audiovisual elencada à sensorialidade, em que as imagens devem ter a “cara” do que se escuta. A imagem deve ser vista no som e o som deve ser ouvido na imagem, buscando oferecer os hiperestímulos exigidos pelo espectador pós-moderno. E é aí onde o curta se perde.

Interessante saber que “For Rabbit”, o free jazz usado, foi composto pelo músico Afonso Abreu, especialmente para animação. É fato que o ritmo é envolvente e os traços simples são, como promete o título do filme, frenéticos. Mesmo assim, são poucos os momentos em que a música e as imagens de fato dialogam entre si.

A inovação de Hélio Coelho está longe de ser a experiência “áudio+visual” – isto já vem sendo experimentado há tempos – mas sim a ousadia em tentar ser “áudio-visual-emocional” ao remeter-se a símbolos da identidade capixaba. Como leiga da cultura espírito-santense, não posso afirmar que o artista plástico não tenha tocado seus conterrâneos com imagens que os fazem lembrar o que são. Porém posso afirmar que, como espectadora, não pude ouvir o que as imagens me diziam. E nem ver o que o som me mostrava.

Íris Jatene

INVERNO, de Paulo Trejes

Inverno conta a história de duas grandes amigas que, após um acidente de carro, se vêem presas, cada uma a sua maneira. Paula, que dirigia o carro, sofreu ferimentos leves. Já sua melhor amiga Ana Lúcia teve uma grave lesão na coluna e ficou tetraplégica. Ana Lúcia se viu presa a uma cadeira de rodas para o resto da vida e Paula se viu presa pela culpa de ter ocasionado o acidente.

Pela perspectiva da narrativa, percebe-se que o texto é livre, simples e direto. Em sua maioria, as imagens falam por si só, sem que seja necessário um dialogo ou narração propriamente ditos. Paula um ano após o acidente, não consegue lidar com a culpa. Isola-se em uma casa de praia, é vista sempre sozinha e algumas vezes evita a amiga. Este comportamento é mostrado quando as amigas conversam ao telefone. Ana Lúcia, ao contrário, quer sempre estar na companhia da amiga. Demonstra uma revolta por depender de todos para qualquer situação, mas nunca culpou Paula pelo acontecido.

O título do filme remete também à situação vivenciada pelas amigas. Além de ser evidenciada à estação do ano, pode-se traçar um paralelo à vida fria, triste e solitária de ambas as personagens após o acidente.

Em busca de uma solução para seus problemas, Ana Lúcia vê uma saída. Ela não deseja essa vida e em uma de suas falas afirma que não quer chegar nem à próxima segunda-feira neste estado. Paula não vê um motivo para que não tome a mesma atitude que a amiga.

A última cena de Inverno nos remete justamente à morte de Paula e Ana Lucia. Paula carrega à amiga nos braços, e entra no mar. A cadeira de rodas de Ana Lucia permaneceu na praia, sendo enterrada na areia pela água. A libertação aconteceu. As amigas entraram nas águas geladas do mar para não voltar mais.

Kamila Simões

SOBE, SOFIA , de André Mielnik (texto 2)

Existem filmes que merecem serem vistos diversas vezes, visto que, pela sua imensidão de significados não se esgotam na primeira sessão, e nem na segunda, nem na terceira, nem na quarta…

Sobe, Sofia é assim. Inesgotável. Instigante. Avassalador.

O público, diante da solidão de Sofia, vê sua vida muda de emoções. A jovem tem por costume subir ao terraço para se inspirar e fumar, já que o cheiro é malquisto pela avó, companhia diária. Não. Espere aí. Assisti de novo e percebi que avó não é sequer uma companhia, ela não existe enquanto presença na vida de Sofia, é apenas mais uma regra no cotidiano.

O convívio escolar da jovem é apresentado como forma de corroborar a realidade e a possibilidade da trama, que insere um outro elemento: um garoto que se muda para o prédio e freqüenta o terraço, desenvolvendo certa ternura ela protagonista.

André Mielnik realiza de forma inteligente o brilhante roteiro de Flora Diegues. Privilegiando os silêncios, amplia o vazio e desperta o desconforto no espectador, que é constantemente convidado a solidarizar-se com a condição da menina. Peraí. Sofia não é tão só, ao subir encontra a cidade, que numa boa atuação da fotografia de João Atala, torna-se público no palco que Sofia constrói. As luzes das avenidas corroboram a criação de um espaço de representação ao iluminar de vermelho (sangue e sensualidade) o rosto da jovem.

Ao retratar a morte da avó, Flora Diegues constrói o grande abalo sofrido por Sofia, que deixa de ter regras e, então, poderá seguir independente. O fato é que a menina sucumbe à vida sem regras que deverá desenvolver. Mielnik constrói uma personagem tão grande quanto o filme, uma personagem que merece ser vista e conhecida, para só assim, sabermos se o céu é o limite para Sofia. Sofia sobe sempre.

Mauro Morais

SOBE, SOFIA, de André Mielnik (texto 1)

Não é novidade alguma que diálogos são importantes recursos para evidenciar a personalidade dos personagens de uma obra audiovisual. Também não é surpresa ter ciência do poder que a trilha sonora tem para aumentar a carga dramática de uma determinada cena. E, claro, não se pode esquecer que existe o risco do exagero ou mau uso dos meios sonoros: um diálogo mal escrito, artificialmente emocional ou meramente expositivo ou, ainda, uma trilha sonora irritante ou piegas ao reforçar um significado já bem explícito apenas pela imagem da cena.

Portanto, é admirável ver como o curta Sobe, Sofia consegue equilibrar tão bem o uso dos seus recursos visuais e sonoros. Consciente das acepções e sentidos que podem ser expressos pela imagem (que, afinal, é a base do Cinema), o filme é econômico e inteligente nas conversas dos personagens e nas músicas de fundo. E este é o tratamento indicado para apresentar o âmago da história: a solidão de sua protagonista.

A presença solitária de Sofia na tela não é expressa apenas pelo silêncio local ou por não haver outra pessoa dividindo a cena com ela. O próprio enquadramento da câmera evidencia o caráter introspectivo da moça. Quando aparece acompanhada de colegas na faculdade, a imagem fica distorcida. Em alguns momentos de grande intimidade, não se pode ver seu rosto. Na cena em que atravessa um momento doloroso, por exemplo, ela surge de costas para o espectador. Quando dança no quarto ao ouvir música ou quando parece estar acostumada à companhia de um vizinho, apenas seus pés aparecem. Ou ainda, após tentar se acalmar com um copo d’água, mais uma vez ela dá as costas para a câmera.

Contudo, mesmo quando o rosto de Sofia passa a ser o foco, ele passa longe de transmitir algum sentimento mais alegre, graças ao notável trabalho da atriz Julia Stockler. Desde o ligeiro sorriso diante das piadas de um rapaz até o rápido desabafo realizado num terraço à noite, ela sempre transmite uma sensação de deslocamento ou melancolia, coerente com o ritmo do filme. Há ainda a representação simbólica de alguns elementos: a televisão fora de sintonia, as visitas ao terraço, o cigarro fora de casa, os poemas escritos. E o último gesto de Sofia é ainda mais emblemático por fornecer uma interpretação ambígua de sua próxima ação. Tudo baseado essencialmente na representação das imagens (sem, claro, menosprezar a importância do som). Tudo para, em poucos minutos, contar uma bela história de solidão e do reconhecimento do valor de algumas companhias, ainda que tardio.

Igor Oliveira

MINHA TIA, MEU PRIMO, de Douglas Soares (texto 3)

Na versatilidade das handycam, o amadorismo referenciado pelo curta Minha Tia, Meu Primo é apresentado com tamanha representação sensorial, que acaba por transbordar os limites da lente. Um universo em que o diretor se insere no interior da trama e que, o imediatamente apresentado no plano cômico, é questionado e refletido, involuntariamente, no que se poderia ser tido como a linearidade narrada. E nem se pretende omitir a presença dos bastidores. O diretor existe como personagem e se afirma na informalidade da fala. Há, aqui, uma constante inversão dos papéis: diretor é personagem, e se comporta como espectador de si mesmo. E ao falar da velha tia, nos insere, observadores presenciais; enquadra a obra numa informalidade familiar, na intimidade daquela moradora de Copacabana e de seu passarinho – tido como o “filho” – engaiolado na varanda do apartamento.

O vídeo não trabalha com um referencial anônimo. A “Tia” – como versadamente referenciada pelo autor – é apresentada na verdade como o núcleo da narrativa, sendo ela, a própria experimentação artística. É no objeto da personagem que a obra se consolida; da fala despreocupada e descontraída aos surtos de entusiasmo e melancolia repentinos.

Soares nos joga impressões que se dão claras e, num segundo momento, negam sua própria existência (ou sua justificativa). E todos os sinais naturalmente transmitidos pela Tia, são dotados de extremidades inconstantes. A mistura de sentimentos e do olhar longínquo a acompanham assim como a melancolia disfarçada; o que define na narrativa uma indefinição no “eu” da personagem. (E nessa melancolia, o autor nos parece se surpreender tanto quanto o espectador – afirmando-se pelo olhar distanciado tradicional do próprio espectador).

Em diversos momentos da narrativa, a personagem constantemente refere a si mesma na terceira pessoa, confirmando o navegável conflito que a cerca. Ela vive aprisionada e daí se sugere a necessidade do aprisionamento do pássaro, da dominação pela dominação. Os bingos, os cigarros, as viagens à Argentina e até mesmo a espontaneidade da velha senhora são na verdade elementos representantes de uma fuga – que o autor deixa no ar –, uma libertação provisória a que ela se propõe; e que sempre se encerram no ritual de um “trazer presentes e cristais”, numa relação de justificação pela generosa alimentação oferecida à pequena ave.

A obra demonstra desde o princípio sua rejeição total pelo tradicional, a começar pelo próprio estilo documental: o universo daquela senhora se sugere hora tão arquitetado, que parece doar, a ficção, um tanto de si à obra. A utilização de equipamentos amadores poderia ser interpretada, inicialmente, como proposta à reafirmação da informalidade característica da narrativa, mas em seu contexto, gera um constante desconforto espectatorial. As imagens são meramente registradas sem que se haja – novamente – preocupação com a técnica e, o que a princípio pareceria erguer uma narrativa, acaba por gerar uma desconstrução perceptiva.

Nessa captação informal a historia cairia no esquecimento se não pela presença contagiante da Tia-avó. A velha senhora, apresentada como tantas personalidades de si mesma, confere humor e dramaticidade à obra. Dramaticidade sim, conferida pelos tantos momentos que aparenta navegar num imenso vazio além da gaiola que representa o apartamento – o mesmo olhar associado à gaiola do pássaro. A solidão da senhora é na verdade a representação referencial (não intencional) do, agora, elemento pássaro.

José de Assis

PÉ NA ESTRADA COM FAROFEIROS, MINHA TIA E O MEU PRIMO (sobre os filmes de Teo Pasquini, Lorena Matheus e Douglas Soares)

Aos escolher o destino de uma viagem quais são as prioridades? O que será decisório para esta escolha? O preço, o destino, a comodidade ou a diversão? Viajar consiste em transpor barreiras, atravessar limites e passar o tempo. Seja dentro ou fora do país.

Se objetivo é reunir todos estes atributos dentro das fronteiras nacionais, as excursões populares podem ser a solução. O curta Pé na Estrada de Teo Pasquini e Lorena Matheus apresenta três organizadoras deste tipo de viagem. Três ricas personagens que revelam de forma bem-humorada todos os processos que envolvem uma excursão, desde a indicação dos passageiros até a satisfação de conhecer lugares diferentes.

A música “Farofa” de Silvio Brito acompanha os depoimentos. O refrão “Comprei um quilo de farinha, pra fazer farofa, pra fazer farofa, pra fazer farofa-fá!”, faz com que seja resgatada a figura daquele que faz uso deste tipo de serviço de “turismo”. O farofeiro segundo o dicionário é o indivíduo que mora longe da praia e que ao freqüentá-la, principalmente nos fins de semana, leva consigo uma sacola de comida, que contém, normalmente, frango com farofa.

As chefes de excursão não são identificadas com créditos e nem apresentadas por legendas ou voz em off. Seus depoimentos são intercalados e os detalhes de suas viagens são contados de forma a convencer o espectador a também a embarcar rumo a estes destinos. Uma das personagens destaca-se pelo senso de organização, indicando tabelas e listagens de passageiros acompanhadas de nome e identidade para evitar problemas com a fiscalização dentro dos ônibus.

Já as outras duas personagens convergem suas opiniões, quando demonstram a preferência pela cidade do Rio Janeiro. De forma bastante peculiar, popular e sem objeções elas contam os locais pelos quais elas gostam de passear pela capital fluminense. As praias são os lugares preferidos delas.

Mas para quem já está acostumado com as paisagens cariocas, mudar de ares e procurar outros lugares pode ser uma outra alternativa de passeio. Alternativa esta procurada por Sateni Vanasien, tia de Douglas Soares, diretor do filme Minha tia, meu primo. De malas prontas, passagens compradas e com a casa em ordem,  Sateni  estava pronta para partir para Argentina e se despedir de seu “filho”, um periquito, que deixa aos cuidados de seu sobrinho.

Segundo o diretor do filme, a idéia de produzir este documentário partiu de uma conversa que teve com a tia ao telefone, na qual ela contou que viajaria no dia seguinte e precisaria de alguém para cuidar do seu querido passarinho.

No filme, Sateni conta que vai viajar para jogar em cassinos argentinos e que não queria ficar mais esperando. Esperando o quê? O tempo correr, a velhice chegar? A personagem também diz que faz negócios com este tipo de passeio. Trazendo lembranças e cristais para vender.

 Toda a preparação desta viagem faz com que esta mulher se exponha, revelando a sua personalidade, seus hábitos, seus conflitos, sua intimidade. Uma pessoa que se julga velha, sem idade para namorar e que parece estar à deriva esperando a vida passar.

Pé na Estrada e Minha tia, meu primo, reúnem juntos quatro mulheres que de maneira muito verdadeira trazem à tona aquilo que preenche as suas vidas em determinados períodos. Pessoas que esperam a próxima partida e consequentemente, a despedida. Seja em um ônibus para Argentina ou em uma excursão abarrotada de farofeiros, a viagem traz a possibilidade de uma nova perspectiva de vida. Talvez este seja o critério para escolher o rumo para o qual seguir.

Júlia Fernandes

MINHA TIA, MEU PRIMO, de Douglas Soares (texto 2)

Com uma câmera na mão, o diretor deixa fluir de forma leve e bem humorada, cenas de sua tia-avó, personagem comum na vida carioca.

Uma mulher idosa, livre, senhora de si, deixa-o incumbido de cuidar de seu “filho”, um passarinho, enquanto viajar. Aparentemente não intencional, o curta nos mostra uma conversa entre diretor e sua tia, e ele conduz às cenas como quer, deixando que a personagem entre em ação.

De início estabelece-se uma dúvida sobre a composição do filme. Teria ele sido editado e, nessa edição, suprimidas várias falas de interferência do diretor na condução das cenas? Ou ele teria apenas ligado a câmera e deixado as cenas fluírem? Onde estão ficção e realidade?

A marca da personagem nos remete às matronas cariocas, de personalidade marcante, bem humorada e sozinha. Percebe-se nela uma figura estrangeira, bem ambientada ao cenário carioca. Fumante, sozinha, apega-se ao pássaro como um filho, suprindo assim sua carência de afeto.

Da viagem esperada, que ela aguarda o momento ansiosa, à preocupação de com quem deixar seu “filho”, o curta retrata com bom humor a saga da personagem e percebe-se claramente o grande apego pelo pássaro. Vem a dúvida: ela quer ficar com o pássaro… Ela quer viajar… Mas se viajar, com quem fica o pássaro e se ficar, não viaja… e por aí vai.

Algumas cenas como a crítica à Caixa Econômica Federal e à referente aos bingos brasileiros são objeto de risos e mesmo de reflexão sobre a problemática política que envolve a personagem.

Solidão é a marca do filme. A solidão do pássaro, a solidão da tia, a solidão do diretor. São solidões que se resolvem, se unem e se complementam. E as soluções surgem para todos a partir do momento em que um se propõe a ajudar o outro. Sateni, personagem do filme, sabe que a viagem será um grande suprimento dessa solidão. O pássaro sente que não ficará sozinho. E o diretor? Bem, esse vai continuar filmando solidões.

Vera Daian

MINHA TIA, MEU PRIMO, de Douglas Soares (texto 1)

 “…Depois eu falo o que você quiser… Minto!” É assim que Sateni, protagonista de Minha tia, meu primo, escancara toda sua lucidez em lidar com a câmera que invade sua intimidade. Pedindo diversas vezes para que o sobrinho-neto encerre as gravações, em momento algum ela parece desconfortável. Pelo contrário, parece mesmo conduzir o filme a sua maneira. Diante do equipamento, a encantadora senhora cativa o público com seu bom humor até mesmo para falar de assuntos mais pesados, como ao declarar o que aconteceria se morresse. “Só mais uma morte na família”.

Sateni tem um comportamento destoante da maioria das idosas que conhecemos. Aparentemente despreocupada com o futuro, mesmo ciente de sua condição efêmera, prefere gastar seu dinheiro com viagens para a Argentina, em busca de cassinos e cristais para presentear – ou vender, se acaso ficar “dura”. Fuma e mostra-se sem pudor trajando apenas um maiô. Pudor também não tem ao falar dos bingos. “Tô rezando para que fechem tudo”.

Sua única paixão parece ser o passarinho que mantém na varanda de seu apartamento. A ave, tratada como filho, ilustra a solidão de Sateni. Ela dá ao pequeno animal a atenção e os mimos que necessita dar a alguém, embora faça muita sujeira e seja descrito como “viadinho”. Xingar quem ela gosta, aliás, parece ser normal. Seu amigo, Pedro, é chamado de chato e nojento, mesmo ela sendo grata pela carona que receberá até a rodoviária.

Desta forma, mesmo sem saber exatamente o que tornaria sua tia-avó a personagem ideal para seu curta, Douglas Soares, em poucos minutos, mostra ao espectador o porquê. A técnica, que a princípio parece falha – uma câmera caseira, sem pré-produção nem trabalho de sonorização, com a necessidade de legendas – revela-se uma forte aliada do diretor. A simplicidade técnica, pensada para não constranger Sateni, deu ao curta o ar despojado que a personagem pede. Aliás, Sateni não pede, manda. Ela dirige o diretor. “Eu já falei isso, não quero ser repetitiva”. Conduzindo-o, assim, ao seu mundo imaginário ou não. Não importa. A simpatia do público já foi conquistada.

Íris Jatene

ANA BEATRIZ, de Clarissa  Cardoso

Entrar na narrativa deste curta nos possibilita a visão de um trabalho feito com uma coerente boa riqueza de detalhes. Com um texto simples e direto, Ana Beatriz traça um paralelo entre a vida de dois jovens que não se conhecem, fazendo uma troca bem elaborada entre o cotidiano de Paulo, nas imagens do mesmo cotidiano de Ana Beatriz.

Numa mescla de sequências de imagens fotográficas e filmagens com uma câmera digital, o curta aproveita bem o texto e a possibilidade da edição acelerada de fotos para compor a história de Paulo e Ana.

Cenas do dia a dia como colocar uma roupa, calçar e amarrar um tênis, escovar os dentes ou pentear os cabelos são mostradas numa sequência dinâmica interessante, cortando um pouco do cansaço da mesma cena caso fosse filmada.

O encontro de duas pessoas, aparentemente feitas uma para a outra, através do dinamismo das cenas, nos deixa ligado e, de certa forma aguardando o desfecho.

O uso de fotos nos remete a certo saudosismo de quando ainda eram reveladas no papel. A união da estática e do movimento cria um clima na dose certa para incitar a imaginação. Espectador e narrador vivem a cumplicidade e o desejo desse encontro inusitado e possível.  

O curta traz uma simplicidade artística interessante, conduzindo o espectador pelas cenas. Leve, direto e descompromissado, Ana Beatriz traduz o comportamento de dois jovens e seu encontro “previsto”. Cenas onde Ana passa perto de Paulo sem que este a veja, nos remete aos desencontros da vida. O olhar em volta e não enxergar o que a vida nos reserva faz parte do cotidiano de muitas pessoas.

Vera Daian

ELÉTRICO JARDIM DA ESCURIDÃO, de Mariana Campos

Mariana Campos, menina franzina de Contagem, foi rejeitada pelo namorado. E daí?! Daí que do limão, Mariana fez uma suculenta limonada para centenas de pessoas experimentarem.

O curta digital foi criado como uma despretensiosa carta audiovisual, em que a remetente, emocionada, pretendia comover o ex-amante, para, quem sabe, fazer reviver sua paixão. A “carta” não foi enviada. O amor não voltou. Mas Mariana, a diretora, produziu uma polêmica cinematografia, capaz de discutir diversos limites contumazes no cinema atual.

Após decidir-se por criar um filme com as imagens em acervo, Mariana atenta-se para a criação de algo mais universal, inserindo, então, recursos gráficos bastantes coerentes e repletos de simbolismos, da mesma forma, que reúne outras gravações de momentos distintos que não fazem referência direta ao amor perdido.

Uma das grandes discussões acerca da obra refere-se ao movimento atual que defende uma produção cinematográfica extraída do site youtube. Não. Não é bem assim que a banda toca. Para realizar um filme, a diretora sabe muito bem disso, é necessário pensa-lo enquanto arte e comunicação, cuidando-o visualmente e incomodar (positiva ou negativamente).

Outra polêmica refere-se aos limites entre público e privado. E nesse ponto, o documentário (documenta um momento de Mariana) resgata a obra da artista plástica francesa Sophie Calle, que expôs esse ano, no Brasil, diversas interpretações de uma carta recebida por ela e enviada pelo namorado, que em palavras escritas dava um fim na relação. Elétrico jardim da escuridão revela certa impessoalidade, o que enriquece o trabalho e torna-o possível de ser visto, assim como a obra de Calle.

A eletrizante trama de Mariana poderia ser compreendida como uma grande encenação, o que não diminui o jardim, pelo contrário, faz crescer mais flores nessa poesia soturna e intrigante. Mariana tinha uma câmera na mão, uma idéia na cabeça e mais: um dilaceramento no peito. Essa limonada, realmente, merece voltar à mesa.

Mauro Morais

FIM DE SEMANA SIM, de Mirian Magami e Vinicius Toro 

Compromisso. Eis a moda e a falha. Eis a chance de sucesso e fracasso.

Nos últimos tempos, o cinema e a televisão têm voltado suas lentes para assuntos que não apenas despertem discussões, mas também emocionem o público. Porém, a falta de comprometimento com essas questões, nos faz assistir produções pautadas em estereótipos equivocados e rasas polêmicas.

O curta digital de Mirian Magami e Vinícius Toro, Fim de semana sim conta a história da menina Bia, que num dos encontros semanais com o pai se depara com Antônio, o filho da nova namorada do genitor. O garoto é portador de Síndrome de Down, questão que costura a trama do filme. A menina, angustiada por dividir o pai com uma outra mulher, agride Antônio, numa rejeição à normalidade, tanto familiar quanto social.

O que poderia ser apenas mais um drama estereotipado sobre uma questão da sociedade, nas mãos da dupla de diretores iniciantes se transforma em um lindo poema familiar. O silêncio, determinante na relação entre pai e filha, gera expectativas no público, que aguarda ansioso por uma forte repreensão. A censura, que deveria se limitar à relação doméstica, se desdobra, sendo o espectador, o grande repreendido na história.

Nossas pré-concepções são fortemente censuradas pelo curta-metragem, ao serem escolhidas as cenas capazes de encenar a normalidade de Antônio. A fuga de Bia, durante a noite, após gritos decepcionados do pai, transmite não só a agonia de uma criança restrita no convívio social, como também faz referência às fugas que escolhemos diante de nossos desenfreados preconceitos.

A trilha sonora, assinada por Guilherme Bechara, é bastante inteligente ao se utilizar da canção Casa forte, de Edu Lobo. A música, eternizada na voz de Elis Regina é caracteristicamente densa e sofrida, caminho pelo qual o filme decidiu seguir sem se prender a diálogos, mas apostando na verborragia da mudez.

A fotografia é correta e bem planejada, assim como a direção de arte, preocupada em criar ambientes agradáveis, porém frios. Já a iluminação é uma grande limitação de Fim de semana sim, que por utilizar a captação digital é prejudicada na qualidade da imagem, repleta de ruídos ocasionais.

Contudo, em tempos que se discutem outros caminhos para a produção audiovisual, é preciso observar boas histórias, olhares sensíveis e coerentes, e, principalmente, o compromisso com as questões que se pretende tratar. Por tudo isso, esse bom Fim de semana, pode, sim, ser uma boa saída.

 Mauro Morais

NO MEU LUGAR, de Eduardo Valente

Em muitos momentos de sua narrativa, esse No Meu Lugar (estreia em longa-metragens de Eduardo Valente, premiado em Cannes em 2002 com o curta Um Sol Alaranjado) parece referenciar-se – para o bem e para o mal – no cinema da (ex) dupla Alejandro González Iñarritu e Guillermo Arriaga. Não falo só do olhar fragmentado sobre a trajetórias de seus personagens, mas também do clima melancólico, pessimista ao extremo, que adota na construção destas trajetórias, e no uso da trilha sonora, com escassos, mas marcantes (e tristes), acordes. A utilização dessa atmosfera, aliás, acaba funcionando bem, sendo um dos êxitos de No Meu Lugar: a falta de perspectivas de seus personagens, especialmente da dupla de protagonistas, vividos pelos ótimos Márcio Vito e Raphael Sil, incomoda, angustia, e, ao mesmo tempo, contribui para o envolvimento do espectador com aquela história – parece que, no fundo, temos alguma esperança de redenção para aqueles dois, ainda que saibamos (ou melhor, desconfiemos) o destino de ao menos um deles. A condução de algumas pequenas belas cenas também merece aplausos: o duro diálogo entre o personagem de Vito e sua filha, na praia; o menino desenhando na parede, sobre as marcas da tragédia ocorrida na casa onde agora mora; a delicada conversa entre o personagem de Sil e seu amigo traficante; e aquela que entendo como a mais bela de todas, a primeira sequência de No Meu Lugar, com o policial vivido por Vito acompanhando com o olhar o trajeto que faz o carro da polícia onde se encontra – encanta a riqueza e tristeza daquele olhar, que revela muito sobre o cotidiano daquele homem, ainda que seu dia-a-dia como policial não seja explorado pelo filme.

Valente, entretanto, comete alguns deslizes. Desenvolve mau seus coadjuvantes (fica evidente a má direção de alguns atores, em contraste com a qualidade do trabalho de Vito e Sil), e entrega um filme desequilibrado, irregular. Chama a atenção particularmente como um dos núcleos da narrativa do longa, aquele centrado no casal vivido por Dedina Bernadelli e Cesar Augusto e seus filhos, se revela desinteressante em comparação com os outros dois, parecendo mesmo deslocado, parte de outro filme. Valente ainda investe demasiadamente na tentativa de construção de um “mistério”, escondendo até o final o resultado daquele quebra-cabeças. O problema é que não é necessário grande esforço para perceber logo os caminhos que serão tomados pelos personagens de No Meu Lugar – e a obviedade da cena final acaba sendo, nesse sentido, um tanto frustrante. O diretor aproxima-se então, perigosamente a meu ver, do cinema de Arriaga pós-briga com Iñarritu, ou seja, de filmes medíocres como O Búfalo da Noite e principalmente o recente The Burning Plain (estréia do roteirista/escritor mexicano na direção de longas). Ser colocado ao lado desse Arriaga não é lá muito bom. Nesse caso, vale a velha máxima: antes só do que mal acompanhado.

Wallace Andrioli Guedes

A VERMELHA LUZ DO BANDIDO,  de Pedro Jorge 

O Bandido da Luz Vermelha. A Vermelha Luz do Bandido. Bandido. Luz. Vermelha. Palavras que se repetem, invertidas, nos títulos desses dois filmes, repetição esperta, que diz muito sobre o trabalho do diretor Pedro Jorge, em seu curta-metragem Documentário-Radialístico-Científico-Experimental de Cinema, como define o próprio.

Como fazer um filme sobre o clássico do cinema nacional O Bandido da Luz Vermelha, de Rogério Sganzerla? Seria possível um documentário tradicional, com “cabeças falantes” dando seus depoimentos sobre o filme, sobre sua importância, sobre o trabalho desse aclamado diretor? Possível seria. Mas recomendável? Arrisco afirmar que não, mesmo que esses depoimentos sejam dados por nomes de peso como Helena Ignez, Carlos Reichenbach, Jean-Claude Bernadet, Julio Bressane, entre outros.

O Bandido foi um filme profundamente transgressor. Esculhambou, avacalhou a cena cinematográfica brasileira daqueles fins dos anos 60, devorou, na melhor moda tropicalista-oswaldiana do período, diversas referências culturais, para entregar uma mistura de filme policial, ficção científica, comédia, narração radiofônica etc., que, querendo-se ou não, marcou época. Pois bem. Pedro Jorge, em A Vermelha Luz do Bandido, busca traçar um caminho parecido com o de Sganzerla: ao invés de entrevistados sentados em frente à câmera rasgando elogios ao filme abordado, as intervenções destes aparecem somente em off – alguns deles dão as caras para serem mortos pelo “novo bandido” do curta, vivido com prazer por Seu Jorge; a multiplicidade de referências, que vai de quadrinhos à internet, é também apropriada pelo jovem diretor, valendo de tudo aqui, tanto aquelas originais do filme de Sganzerla (como Orson Welles e Godard), quanto novidades da contemporaneidade, como o You Tube; Pedro Jorge também lança um novo olhar, seu, sobre a São Paulo filmada há 40 anos em O Bandido, e, mesmo assim, as imagens de hoje acabam nos remetendo diretamente àquelas de 1968, capturadas com tamanho engenho por Sganzerla.

O Bandido da Luz Vermelha. A Vermelha Luz do Bandido. Bandido. Luz. Vermelha. Esse duplo, essa inversão de palavras acaba revelando o que é esse filme de Pedro Jorge: mais que uma homenagem a um grande clássico, mais que uma constatação da importância deste, A Vermelha Luz do Bandido é, também, uma releitura contemporânea de Sganzerla. Feita com muita propriedade, diga-se de passagem.   

Wallace Andrioli Guedes

COMO COMER UM ELEFANTE, de Jansen Raveira

Como comer um elefante satiriza mais do que o mundo das candidatas em concursos de beleza. Brincando com o malfadado estereótipo das misses – para quem o sonho deve ser a paz mundial e o livro de cabeceira, O Pequeno Príncipe – a animação de Jansen Raveira toca na necessidade humana de aceitação.

A protagonista sofre um colapso nervoso durante o desfile provocado essencialmente pela sensação de frustrar as próprias expectativas. Afinal, como ser uma miss completa sem ter na obra de Antoine de Saint-Exupéry a inspiração para seus sonhos? O pequeno personagem e as ilustrações de suas aventuras, feitas em aquarela pelo próprio Saint-Exupéry, conferem ingenuidade à obra, o que disfarça sua poesia e seu teor filosófico em literatura infantil.

Pelo menos desde a década de 1980, o livro francês mais vendido do mundo e o “fabuloso” mundo das misses estão ligados por um preconceito: dizem que dez de cada dez candidatas o têm como leitura favorita. Ler Le Petit Prince, portanto, é para a protagonista uma espécie de ritual de passagem que lhe fornece o status para alcançar o que almeja.

Produzido em Flash e Tablet, o curta tem a seu favor a liberdade de “viajar” junto com a imaginação da candidata a miss, proporcionando leveza e humor. A aparente despretensão e o timing cômico são os grandes méritos narrativos desta animação, que brinca com a longínqua relação entre o Principezinho e as candidatas a miss.

Íris Jatene

NO TEMPO DE MILTINHO, de André Weller

Se o movimento é o que desenha o imaginário, o documentário No Tempo de Miltinho se apresenta como o próprio objeto das representações estéticas. É no movimento que a obra se manifesta e, num ritmo leve e compassado, é traduzida como a essência do próprio Rei do Ritmo, Miltinho; da velha boemia carioca, dos bares, do andar mulherengo. E como que projetasse visualmente as palavras, Weller utiliza num mesmo esquema documentado, elementos que destacam a narrativa como uma obra a ser lembrada. Os elementos são bem construídos, mas o filme peca no enquadramento do personagem quando visto em perfil, o que acaba por limitar a perspectiva dando o aspecto chapado.

Com uma narrativa curta, o diretor corre o risco inicial de cair no velho clichê dos documentários, mas logo nos primeiros lances supre as expectativas numa segunda leitura. Claramente tradicional, dos enquadramentos padronizados, das arquitetadas modulações de “pergunta-resposta”, a narrativa fílmica surpreende no explorar extremo dos detalhamentos (que falam num muito além das palavras). Áudio e vídeo conexos – em sua extensão geral – reafirmam o ritmo a que se propõe o diretor. Os cortes em fade acompanham a trilha boêmia da bossa ao samba. E se tratando de um retrato proposto do músico, o áudio não poderia e não age como mero complemento da imagem – posto em segundo plano – os sons (ou sua ausência) são, na intencionalidade do roteiro, apresentados como partes essenciais do todo fílmico.

O olhar do personagem é direcionado ora para o espectador – nos incluindo definitivamente no contexto –, ora para um imaginado entrevistador – a que se sabe. O filme segue os mesmos enquadramentos, variando apenas pelos flashbacks, até o momento em que a linearidade dos planos é propositalmente quebrada quando o diretor nos insere no set de filmagem, com spots e cabos de som no plano de fundo e, nesse momento, é confirmada a presença do entrevistador.

O filme nos questiona quanto à sua narrativa, nos pergunta e ao mesmo tempo responde quem é Miltinho. As lentes captam um olhar outro que penetram na apresentação do personagem. Não de um músico, mas de um intérprete. E é nessa interpretação, que a obra se legitima. No detalhar das mãos que se movimentam expressivamente, nas próprias expressões faciais que encenam, na voz que se duplica ao musicar do personagem. O filme apresenta uma série de signos que instiga e retorna sempre ao objeto da interpretação; o que se confirma na própria fala de Miltinho que se qualifica intérprete: “… Quando não tem voz, interpreta-se”. Não existe aqui, portanto, a intenção de um fazer revolucionário, somente a afirmação da obra em sua amplitude.

E essa amplitude com que o personagem nos atinge, confere à obra uma relevante identificação com o referencial histórico. Não se apresenta a pessoalidade do personagem, mas seu objeto de expressão. Ele não é dotado de dramaticidade extrema ou de exagerado entusiasmo. Mas de maneira singular, a narrativa se reafirma no universo sensorial. Comum e surpreendente, Miltinho é apenas Miltinho – de um retrato único.

José de Assis

FIRMA, de Mariana Musse

 Você conhece o Firma?

Além de ser o nome de uma figura cativante dos arredores de Ibitipoca é também o nome de um vídeo inscrito no 8° Festival de Cinema de Juiz de Fora e Mercocidades, concorrendo à categoria competitiva regional. Firma conta a história de um homem que conseguiu realizar o sonho de sua vida: ter um bar. Em Ibitipoca, é uma das principais atrações. Com o sonho realizado, Firma faz do bar a sua casa transformando-o num dos mais inusitados bares da região. 

A trama acontece com a narração do próprio personagem sobre a sua vida. Em forma de depoimentos, conta passagens de sua vida, lembra de momentos difíceis da infância, dos oito irmãos e o único presente de Natal que ganhavam para dividir: uma bola. 

Firma mostra o seu bar, conversa com amigos, fala de seus filhos, apresenta sua filha caçula Barbara e conta como conseguiu montar o Bar Candeia. Uma das principais atrações do Candeia, conta Firma é a Jeannie, a cachaça que desce através do barbante. O nome, de acordo com Firma, surgiu devido ao Gênio Jeannie, série de TV dos Estados Unidos. Jeannie a cachaça, seria o gênio dentro da garrafa. A partir daí, os clientes gritam: Firma desce a Jennie. A cachaça então desce do teto até a mesa, em uma garrafa, através de comandos com o barbante e uma manivela feitos pelo próprio Firma do balcão. 

Firma aproveita todos os objetos que encontra. Nada se perde nas mãos dele. Muitos o lembram de seu passado, outros apenas foram encontrados e são utilizados como acessórios na manutenção do bar ou na decoração.

Hoje, Firma se sente feliz. Afirma que sem o apoio de seus clientes e amigos não teria chegado aonde chegou. A emoção é visível nos últimos momentos do documentário. Firma abraça a diretora Mariana Musse com enorme gratidão. 

Kamila Simões

HISTÓRIAS DE AMOR DURAM APENAS 90 MINUTOS, de Paulo Halm

Histórias de Amor Duram Apenas 90 Minutos não tem sutileza em quebrar a quarta parede que o separa do espectador. O título que estabelece a duração do filme, a narração em off (que justifica um flashback logo no início da trama) se dirigindo diretamente a quem o assiste, o uso de técnicas de animação em determinada cena. São artifícios que estabelecem imediatamente a cumplicidade que o protagonista busca no público. Porém, o interesse em acompanhar as dúvidas do escritor Zeca pouco tem a ver com o carisma do personagem. Ele é suscitado principalmente por dois fatores. O primeiro é a ênfase com que o filme lembra da própria ficcionalidade, atraindo mais pela curiosidade em saber como será o desenrolar de uma história de humor negro do que por algum possível envolvimento com os personagens. O segundo é a interpretação de Caio Blat. Sem poder escapar da esterilidade emocional do filme, buscando mais a comicidade do que o drama (e às vezes no próprio drama), o ator mostra Zeca como um homem ocioso, confuso e covarde, mas sem cair no ridículo (exceto quando justificado pela cena) ou apelar para a canastrice, que poderia ser uma saída fácil para provocar risos e atrair ainda mais a atenção do público.

Diferente da sua esposa Julia (interpretada por Maria Ribeiro, esposa de Blat na vida real), Zeca valoriza muito mais a autopiedade do que o esforço em buscar solução para os seus problemas. Extremamente passivo (comportamento que atinge o seu auge diante da condição imposta pela amante na primeira relação sexual deles), sempre define suas ações a partir do que os outros personagens dizem, seja esposa, amante, diarista ou uma mulher bêbada num bar. A exceção é seu pai (Daniel Dantas), cujos conselhos são ignorados e até repreendidos. E por aí é estabelecido um contraste entre a frustração ligada aos homens e a determinação característica das mulheres no filme: enquanto Julia é competente e ambiciosa no seu trabalho e a dançarina Carol (a atriz argentina Luz Cipriota) sabe valorizar seu estilo boêmio de vida, Zeca e seu pai sempre reclamam, mas são conformados com o que fazem, além de usarem a bebida mais como catarse do que lazer. Festas e filmes parecem construir uma união entre as duas mulheres mais forte do que a ligação entre pai e filho, baseada no parentesco e no gosto pela literatura que ambos compartilham.

Aliás, literatura e o ato de escrever constantemente são citados mais como pretexto para diálogos sobre a frustração do que como arte ou ofício. Zeca admira Rubem Fonseca. O esboço do seu livro parece inspirado em algumas histórias policiais do escritor mineiro, mas ele não aparenta possuir sensibilidade ou vocação para investir em tal carreira. Exemplo: no momento em que ouve a pergunta sobre a experiência de morar em Paris, responde apenas que lá faz frio, sem tom irônico ou cínico, como geralmente ocorre nas respostas de seu pai. E seu pretenso talento nunca fica claro, apenas é vislumbrado num texto de desabafo escrito quando era criança (e aparenta ter levado seu pai a acreditar que o filho levava jeito para a escrita). Não consegue tirar inspiração dos momentos de pesquisa, alegria, tristeza ou angústia. Porém, mais do que a incapacidade de escrever, seu verdadeiro incômodo é a ausência de mulheres para determinar suas ações, o que pode provocar até uma sensação de tranqüilidade, mas, sobretudo, inerte, como demonstra a última cena do filme. Com seus delírios visuais e suas confusões sobre mulheres e traição, a impressão que fica é que o protagonista talvez fizesse boa escolha se largasse a carreira de escritor e se dedicasse a roteiros de filmes. Sempre quebrando a quarta parede.

Igor Oliveira

PRIMEIROS TEXTOS DA OFICINA DE CRÍTICA DO FESTIVAL PRIMEIRO PLANO 2009

Pelo segundo ano consecutivo, o Festival Primeiro Plano abre espaço para uma oficina de crítica de cinema em sua programação. Os 25 alunos inscritos discutem diariamente os filmes exibidos na noite anterior (curta-metragens regionais, nacionais e longas-metragens) e saem das aulas com a tarefa de transformar este papo em texto crítico. A primeira leva dessa produção acaba de ficar pronta, e é ela que publicamos a seguir, com todos os autores devidamente identificados. Cada aluno teve total liberdade de escrita, e a própria dinâmica de uma oficina que agrega pessoas de formações diferentes se manifesta nos textos que apresentamos agora, todos eles bastante distintos entre si, e ao mesmo tempo completamente entregues ao exercício do pensamento crítico sobre o cinema – e, especificamente, sobre o cinema de curta-metragem brasileiro atual, sempre tão pouco analisado pela crítica. O mandamento fundamental das nossas aulas tem sido a aposta no binômio paixão-lucidez (tomado emprestado do grande crítico francês Jean Douchet). E é de amores e idéias que os textos abaixo – e os que ainda serão publicados até o fim do festival – se nutrem.

Que leitores e realizadores acompanhem a jornada destes novos críticos sempre por aqui, no blog do festival.

Rodrigo de Oliveira
(professor da oficina)

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Baseado na obra de Valêncio Xavier, é dirigido por Beto Carminatti e Pedro Merege.

Veja a ficha técnica completa

Sinopse

O jovem padeiro Astolfo Dagoda conhece a empregada doméstica Jucélia Ramos, no Passeio Público de Curitiba. Apaixonado, Astolfo convida Jucélia para um passeio no trem fantasma do parque de diversões. No exato momento em que o homem pisa na Lua, a jovem Jucélia Ramos desaparece misteriosamente dentro do trem fantasma. Astolfo torna-se o principal suspeito do desaparecimento. O escritor VX, importante testemunha do caso, também desaparece. Jucélia Ramos nunca mais foi vista, nem foi encontrada nenhuma explicação razoável para o seu desaparecimento, constituindo o fato, até hoje, um dos grandes casos insolúveis nos arquivos policiais. Anos mais tarde, VX trabalha na restauração de “Sapho, o amor entre as mulheres”, um filme erótico de 1922, produzido pelo desconhecido diretor Crispim Carmoro. A atriz principal chama sua atenção: é Jucélia Ramos, a jovem desaparecida em 1969. Intrigado com o fato e obcecado pela jovem, VX parte para uma jornada onde realidade e fantasia se misturam.

Depoimento do ator Leonardo Miggiorin

“É um filme belíssimo e com direção fantástica. O personagem sofre uma pressão psicológica muito grande, já que uma menina que o encantara momentos antes desaparece enquanto está com ele, que se torna suspeito e é acusado pela polícia por este desaparecimento misterioso. Tudo no filme envolve uma certa nuance obscura, um drama sofisticado, um suspense bem tramado.”, comenta Leonardo Miggiorin.  

Festivais

Participou do Festival Internacional de Cinema da Espanha, da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo e da Mostra de Cinema de Tiradentes.

A WG7BR, produtora do prestigiado filme, também alcançou o 1º lugar no disputado “Festival Claro Curtas”, organizado pela companhia de celulares Claro, tendo concorrido com outros 1.500 candidatos.

Informações retiradas do blog BNPRESS.

Confira o site Primeiro Plano.

Crítica retirada do site Cine Players.

O crítico Eduardo Valente já esteve em Cannes mostrando os curtas ‘O Sol Alaranjado’ e ‘Castanho’. Primeiro longa de Eduardo Valente, No Meu Lugar, que foi apresentado em Cannes, rendeu algumas críticas nas revistas americanas. O trabalho – que concorreu ao Câmera D´Or, prêmio destinado ao melhor filme de estréia – dividiu a crítica. Segundo Jay Weissberg, da Variety, Valente, em sua estréia, afastou-se do cada vez mais comum ritmo frenético que caracteriza os filmes brasileiros, que se prolongam em cenas violentas. Weissberg destaca a montagem e a forma como Valente mostra a cidade do Rio de Janeiro. “O montador Quito Ribeiro, consideravelmente mais comedido que em ‘O Maior Amor do Mundo’, faz um bom trabalho manipulando a natureza do filme, não apenas entre as estórias mas também entre os períodos de tempo. Já o The Hollywood Repórter comparou o filme com a obra de Alejandro González Iñárritu (Babel): “É claro que o diretor fez seu dever de casa sobre todos os filmes como ‘Amores Brutos’ com narrativas díspares e impenetráveis que se unem no final. No entanto, esse tipo de coisa é mais fácil de se estudar do que de realizar, e Valente, obviamente um talento promissor, não consegue ser bem-sucedido em ‘No Meu Lugar’”, afirmou não tão positivamente o crítico Peter Brunette. Quando foi exibido, a sessão contou com a presença do diretor e da atriz Dedina Bernardelli, de maneira que o público lotou o local. Com produção da VideoFilmes, No Meu Lugar narra três histórias passadas em tempos diferentes, depois de um assalto a uma casa de classe média alta, no Rio de Janeiro.

Confira no site do Primeiro Plano como foi a exibição de “No Meu Lugar”

teste de elencoTeste de elenco, de Ian SBF e Osiris Larkin, teve sua estréia na abertura do Festival Universitário de 2009. A comédia foi muito bem recebida pelo público. O mais novo objetivo dos diretores é contar com esse mesmo público para conseguir levar o filme às salas de cinema. A comédia, filmada no fim de 2008 e finalizada em 2009, é uma produção Fondo Filmes.

“Teste de Elenco” é o primeiro longa-metragem do diretor que já é conhecido do público capixaba pelo surpreendente “O lobinho nunca mente”, vencedor do Festival REC 2007, além de mais 19 prêmios pelo Brasil, entre eles, o prêmio de melhor direção do Vitória Cine Vídeo 2007.

Ian já participou do Primeiro Plano com o curta-metragem “O lobinho nunca mente”. Em 2007. Ganhou o prêmio Melhor Primeiro Plano.

Teste de Elenco chegou ao Twitter sem pretensões e conquistou admiradores que, hoje, se tornaram divulgadores entusiasmados. Em apenas 20 dias, o perfil do filme já reúne mais de 900 seguidores interessados em assistir a comédia, que traz Fábio Porchat como protagonista.

O lançamento do trailer do filme no Youtube contabilizou mais de 5 mil visualizações ao vídeo, em apenas 2 dias, superando as expectativas dos diretores estreantes Ian SBF e Osíris Larkin. Veja o trailer.

O Edifício, dirigido por Victor Zaiden e Rita Viana, abrirá o Primeiro Plano, juntamente com o longa “Histórias de amor duram apenas 90 minutos”. O curta-metragem de 12 minutos, O Edifício, é resultado do Prêmio Incentivo Primeiro Plano 2008.

Assista ao making of.

Mais informações  no site do Primeiro Plano.

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Zeca, aos 30 anos, ainda é um cara sem rumo na vida que vive da herança deixada pela mãe falecida. Embora talentoso com as palavras, vive às voltas com um romance estacionado na página 50 e passa seus dias na mais depressiva vagabundagem. Mas, apesar de não fazer nada de produtivo, ele não tem problemas financeiros e é casado com uma bela e independente professora de artes, Julia. O relacionamento caminha aos tropeções, em grande parte por causa das diferenças de temperamento. Ela vai atrás do que quer, ele fica sentado reclamando da vida. As coisas se complicam quando Zeca descobre que Julia o está traindo com Carol, uma dançarina de tango argentina liberal e cheia de alegria de viver. E complicam-se mais ainda quando o próprio Zeca começa a se encantar pela moça.

A dinâmica entre os personagens é muito interessante, a começar pelo fato do protagonista ser um sujeito imaturo – por vezes, chato mesmo – que cava seus próprios problemas e se afunda em vitimações. Mas o roteiro em nenhum momento glorifica seu modo de ser, seu estilo de vida; pelo contrário, todos os outros personagens o criticam com argumentos mais do que válidos. E o mais interessante é que a narração cheia de auto-comiseração feita por Zeca em off contrasta com as conclusões que o próprio espectador pode tirar a respeito dele. A começar pelo seu próprio pai, que embora seja apresentado por Zeca como repressor, vai se delineando diante dos nossos olhos como um cara que apenas não aguenta mais ver o filho não tomar nenhum rumo na vida. Ele tem pouca paciência sim, mas quem não teria após aturar a mesma ladainha por anos e anos? O mesmo se dá com Julia, que até gosta dele… mas não o respeita muito.Historias_de_amor_duram_apenas_90_minutos_3

Paulo Halm, tarimbado roteirista, faz sua estreia como diretor de longas-metragens com essa inusitada tragicomédia. A trama tem uma lógica parecida com a de Pequeno Dicionário Amoroso (cujo roteiro foi escrito por ele) e não pretende apresentar um conflito fechado e sua solução e sim fazer um recorte na vida do protagonista. Zeca, apesar de sua idade cronológica, é um garoto mimado e reclamão e não é apenas essa desilusão amorosa em particular que o transformará em um homem. Mas talvez ele aprenda alguma coisa, por mínima que seja, a partir da série de burradas que comete com Julia e Carol. Ou não, como diria Caetano Veloso – que, aliás, abrilhanta a trilha sonora com sua versão de Nature Boy.

Considerando apenas seu argumento central, Histórias de Amor Duram Apenas 90 Minutos poderia ter se convertido em um filme pesado, sério, cheio de implicações psicanalíticas. Mas a abordagem proposta por Halm é de puro deboche, ressaltando o ridículo das situações e não seu lado patológico – o que fica evidente já pelo título metalinguístico. Segundo Halm, que não gosta de rotular seu filme como comédia romântica, “o filme é sobre a geração que, apesar de ter talento, nunca decola. São escritores que escrevem e não publicam, cineastas que não filmam, compositores que não gravam”. Tendo como cenário a mítica Lapa, está criado o contexto ideal para que se desenrolem com muita graça as situações vividas por Zeca, Julia, Carol e mais uma penca de personagens colaterais.

O casal Caio Blat e Maria Ribeiro, que também são produtores do longa, interpretam na tela Zeca e Julia. Como não podia deixar de ser, a química entre os dois é excelente e a chegada da atriz argentina Luz Cipriota só enriquece o jogo cênico, formando um triângulo amoroso muito engraçado. Caio é tão talentoso que consegue tornar simpático um personagem de tão poucas qualidades, do mesmo modo que Maria atua com tanta verdade que faz a traição parecer coisa mais natural do mundo. Destaque para as inusitadas circunstâncias do primeiro contato mais íntimo entre Zeca e Carol. É de chorar de rir.

O filme é favorito dos leitores de O Globo

Conforme publicado no O Globo, no dia 10/10/2009, os leitores do jornal elegeram “Histórias de amor duram apenas 90 minutos” o melhor filme do festival do Rio. Por outro lado,  nos resultados oficiais da mostra competitiva da Première Brasil, o longa de Paulo Halm não ganhou nenhum troféu Redentor.

O longa estrelado por Caio Blat e Maria Ribeiro encantou os leitores que participaram da votação. Amanda Chaves Oliveira de Almeida elogiou a produção: “Merece ganhar todos os prêmios do festival, um ar sarcástico, engraçado, sensual, doce e contagiante!”. Outra leitora, Christina Moreira Camargos também opina: “um filme que trata dos conflitos de um escritor permeado por sua relação com a mulher com delicadeza e extremamente bem realizado, excelente produção!”.

Paulo Halm define seu protagonista

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“Nosso herói, o Zeca, interpretado por Caio Blat, é um romântico incurável, quase um poeta do século 19 deslocado de seu tempo. Incapaz de tomar as rédeas de seu próprio destino, ele se deixa envolver por fantasias, por devaneios. Em suma, vive no mundo da lua, num mundo ideal como os das comédias românticas, onde sempre, invariavelmente, o final é feliz”. Assim Paulo Halm define o protagonista de Histórias de Amor Duram Apenas 90 Minutos , sua estreia como diretor de cinema após 18 anos como roteirista.

Para Halm, “Histórias de amor duram apenas 90 minutos” tenta entender e analisar uma geração de jovens até os 30 anos que custam a crescer e dar o último passo no processo de amadurecimento. Como explica o cineasta: “Meu herói vive esse processo de forma tardia, mas com um agravante: durante a juventude nos é permitido sermos amadores. Quando nos tornamos adultos, recebemos uma carga de cobrança que na maioria das vezes age de forma paralisante, frustrante, traumática”.

Em 2007, optamos por trabalhar com temas dentro de nosso Festival. Este ano a opção foi O(u)tros Camin(h)os, idéia que sinaliza a vontade de pensar formas alternativas de se produzir e distribuir filmes no Brasil e na América do Sul. Dentro desse panorama, o Mercosul e as co-produções entre seus países irmãos teriam papel fundamental.Mas o destino nos prega peças, e o próprio Festival se viu obrigado a buscar outros caminhos para viabilizar sua realização. A crise econômica que atingiu o mundo esse ano fez com que as empresas se retraíssem e diminuíssem a verba destinada a patrocínios culturais.

Mesmo assim, agradecemos de coração aos nossos parceiros, que, mesmo com todo impacto da crise, continuaram acreditando em nós e não deixaram de nos apoiar. Nesse “caminho alternativo”, optamos por manter o coração do Festival: as Mostras Competitivas, as Pré-estreias de Longas, Mostra Mercocidades, a Mostra Audiovisual de Juiz de Fora, a Sessão Escola e o Plano Animado, as oficinas e o Encontro Internacional de Audiovisual de Juiz de Fora e Mercocidades.

A difícil tarefa de selecionar 25 curtas dentre 151 inscritos na Mostra Competitiva Nacional e 19 dentre 35 na Mostra Competitiva Regional foi gratificante, pois, com isso, o Festival traz a Juiz de Fora o que melhor vem sendo produzido por diretores estreantes brasileiros e uma mostra bastante significativa do que se produziu em Juiz de Fora no último ano.

O número de cineastas que estão debutando nos longas também não param de crescer em quantidade e qualidade. Infelizmente tivemos que deixar de fora vários títulos que já estão dando o que falar em nosso cinema. Mesmo assim, a Pré-estreia de Longas traz um recorte representativo do nosso novo cinema.

Dentro da Mostra Mercocidades, além do longa de pré-estreia, apresentamos esse ano um programa especial da Escuela Nacional de Experimentación y Realización Cinematográfica (ENERC), de onde saíram nomes hoje consagrados como Lucrecia Martel e Gustavo Mosquera.

A velha guarda de Juiz de Fora continua mostrando suas produções na Mostra Audiovisual de Juiz de Fora. E os pequenos também não perderam a vez. Continuamos a incentivar as crianças a irem ao cinema com a Sessão Escola e os curtas de animação poderão ser vistos reunidos no Plano Animado.

Daremos também continuidade às Oficinas de Crítica Cinematográfica e Querô, que ano passado colocaram as pessoas em contato, de diversas formas, com o fazer e o pensar cinematográficos. Dentro do campo da reflexão, daremos seguimento ao Encontro Internacional de Audiovisual de Juiz de Fora e Mercocidades, no qual discutiremos as possibilidades alternativas de produção e exibição cinematográficas.

Finalmente, temos também o orgulho de apresentar este ano o resultado do Incentivo Primeiro Plano, primeira produção audiovisual do nosso Festival, realizada em parceria com a Universidade Federal de Juiz de Fora e diversas empresas e instituições que trabalham em prol do Cinema Nacional.

Que bons ventos cinematográficos nos levem… Até a próxima!

A Equipe

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